segunda-feira, 28 de março de 2011

Contra quem se revoltar?

Perder um filho não é o fim do mundo, é um pouco pior. Dizem que a dor do parto é a mais forte que um ser humano pode experimentar. Pode até ser, mas ela dura alguns minutos e é seguida por uma alegria que está só começando. Perder um filho é justamente o contrário, pois a dor começa depois que eles se vão.

Todos dizem que essa dor diminui com o tempo. Nos primeiros dias, porém, ela parece que aumenta, é o que chamam de "tempo da ficha cair". Simplesmente não era possível acreditar que ele não estaria mais conosco, e sempre que chegava em casa, sentia que ele estaria lá, me esperando como sempre fazia. Em cada cômodo vazio as lembranças brotavam facilmente, e imediatamente eram seguidas de lágrimas. Lágrimas de saudade, mas também de muita revolta.

Com mais de dois meses sem o meu filho, ainda é difícil deitar à noite e dormir um sono tranquilo. Todas as lembranças do hospital e do sofrimento pelo qual ele teve que passar vem à mente, e nenhuma palavra que me disseram, nenhum raciocínio (e tentei vários!) foi ainda capaz de me consolar, de sarar a ferida da sua partida.

É um misto de raiva com estupidez, pois não é possível direcionar essa raiva para alguém. Vou explicar.

Quando o filho de alguém é assassinado, em geral a família embarca em uma luta para que a justiça condene o culpado. De uma certa forma, essa luta dá algum sentido para a vida dessas famílias, que são destruídas com a perda trágica dos filhos.

Quando o filho morre em um acidente, em geral também é possível encontrar um culpado. Mas, e no caso de perder um filho para uma doença grave como a leucemia, contra quem eu vou me revoltar? Quem foi o culpado pela morte dele? Quem foi culpado pelo aparecimento da doença e pelo sofrimento pelo qual ele passou em quase 3 anos de tratamento? É justo uma criança vir ao mundo e não conhecer o mar, não correr, não sair de casa para se divertir, e como se ainda não bastasse, sofrer dores físicas e torturas psicológicas?

É por isso que a raiva que sinto é estúpida, eu não posso direcioná-la para nenhuma pessoa. Será então que eu posso culpar a Natureza?

De uma certa forma sim, por que a doença aparece por alguma falha genética, que é o cerne da Natureza, ou é a própria Natureza. Mas, de uma certa forma não, por que essa doença também se distribui aleatoriamente na população, e da mesma forma que meu filho foi "sorteado" , milhões de crianças não foram, e seus pais provavelmente agradecem a Deus por isso.

E eu, faço o que?

sexta-feira, 18 de março de 2011

Quando não souber o que dizer, não diga nada!

É incrível como as pessoas falam coisas o tempo todo, mesmo quando não possuem nenhuma opinião formada sobre o assunto. Um caso típico acontece sempre que alguém pergunta sobre uma pessoa e descobre que essa pessoa morreu; sem saber o que dizer, e sem pensar um segundo sequer, já mandam logo uma frase do tipo :"Deus sabe o que faz!", ou "Deus sabe o que é melhor". Alguns dizem isso até com certo grau de convicção. Quanto engano...quanta besteira...

Será que alguém já parou pra pensar que para um pai que perde um filho, isso nunca pode significar algo bom? Como vai ser melhor? Tem algum cabimento isso? O pai vai ficar mais feliz sem o filho? E para uma criança que perde os pais? Como vai ser a vida dela? Vai ser melhor crescer sem a presença dos pais?

Quem sou eu para saber as respostas de todas as coisas, mas as pessoas deveriam pelo menos pensar um pouco antes de falar qualquer bobagem.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Qual é a melhor religião?

Recebi esse texto por email, um daqueles intermináveis Fwd que não costumo abrir, mas o título me chamou a atenção e resolvi ler. Dizia o seguinte:

Breve diálogo entre o teólogo brasileiro Leonardo Boff e o Dalai Lama.
Leonardo Boff explica:


"No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos,
na qual ambos (eu e o Dalai Lama) participávamos,
eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico,
lhe perguntei em meu inglês capenga:
- "Santidade, qual é a melhor religião?" (Your holiness, what`s the best religion?)
Esperava que ele dissesse:
"É o budismo tibetano" ou "São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo."
O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos
- o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia
contida na pergunta - e afirmou: "A melhor religião é a que mais
te aproxima de Deus, do Infinito".É aquela que te faz melhor."
Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta,
voltei a perguntar:
- "O que me faz melhor?"
Respondeu ele:
-"Aquilo que te faz mais compassivo" (e aí senti a ressonância tibetana, budista,
taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado,
mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... Mais ético...
A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião..."
Calei, maravilhado, e até os dias de hoje
estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável...
Não me interessa amigo, a tua religião ou mesmo se tem ou não tem religião.
O que realmente importa é a tua conduta perante o teu semelhante, tua família, teu trabalho, tua comunidade, perante o mundo...
Lembremos:
"O Universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos".
A Lei da Ação e Reação não é exclusiva da Física. Ela está também nas relações humanas. Se eu ajo com o bem, receberei o bem. Se ajo com o mal, receberei o mal.
Aquilo que nossos avós nos disseram é a mais pura verdade: "terás sempre em dobro aquilo que desejares aos outros".
Para muitos, ser feliz não é questão de destino. É de escolha.


Pense nisso.


Realmente é bonito, principalmente a parte do Dalai, mas tenho que discordar do final. A lei da ação e reação não existe. Quantas pessoas que só fazem o bem não receberam uma bala perdida? Quantas pessoas que só fazem o mal e nada de mal acontece a elas?   Infelizmente não existe justiça divina, e essa estória de ação e reação é uma espécie de justiça divina disfarçada. 
Perdi um filho de 3 anos e 4 meses, sendo que por 2 anos e 8 meses ele sofreu diariamente torturas físicas e psicológicas de um tratamento para combater a leucemia.

Qual a justiça nessa história? O que ele fez de mal ao universo para merecer isso?