Perder um filho não é o fim do mundo, é um pouco pior. Dizem que a dor do parto é a mais forte que um ser humano pode experimentar. Pode até ser, mas ela dura alguns minutos e é seguida por uma alegria que está só começando. Perder um filho é justamente o contrário, pois a dor começa depois que eles se vão.
Todos dizem que essa dor diminui com o tempo. Nos primeiros dias, porém, ela parece que aumenta, é o que chamam de "tempo da ficha cair". Simplesmente não era possível acreditar que ele não estaria mais conosco, e sempre que chegava em casa, sentia que ele estaria lá, me esperando como sempre fazia. Em cada cômodo vazio as lembranças brotavam facilmente, e imediatamente eram seguidas de lágrimas. Lágrimas de saudade, mas também de muita revolta.
Com mais de dois meses sem o meu filho, ainda é difícil deitar à noite e dormir um sono tranquilo. Todas as lembranças do hospital e do sofrimento pelo qual ele teve que passar vem à mente, e nenhuma palavra que me disseram, nenhum raciocínio (e tentei vários!) foi ainda capaz de me consolar, de sarar a ferida da sua partida.
É um misto de raiva com estupidez, pois não é possível direcionar essa raiva para alguém. Vou explicar.
Quando o filho de alguém é assassinado, em geral a família embarca em uma luta para que a justiça condene o culpado. De uma certa forma, essa luta dá algum sentido para a vida dessas famílias, que são destruídas com a perda trágica dos filhos.
Quando o filho morre em um acidente, em geral também é possível encontrar um culpado. Mas, e no caso de perder um filho para uma doença grave como a leucemia, contra quem eu vou me revoltar? Quem foi o culpado pela morte dele? Quem foi culpado pelo aparecimento da doença e pelo sofrimento pelo qual ele passou em quase 3 anos de tratamento? É justo uma criança vir ao mundo e não conhecer o mar, não correr, não sair de casa para se divertir, e como se ainda não bastasse, sofrer dores físicas e torturas psicológicas?
É por isso que a raiva que sinto é estúpida, eu não posso direcioná-la para nenhuma pessoa. Será então que eu posso culpar a Natureza?
De uma certa forma sim, por que a doença aparece por alguma falha genética, que é o cerne da Natureza, ou é a própria Natureza. Mas, de uma certa forma não, por que essa doença também se distribui aleatoriamente na população, e da mesma forma que meu filho foi "sorteado" , milhões de crianças não foram, e seus pais provavelmente agradecem a Deus por isso.
E eu, faço o que?