Em uma cena do filme Alexandria (Agora, 2009), um dos alunos de Hipatia, ao se defrontar com o sistema astronômico de Ptolomeu, com seus complicados ciclos e epiciclos, disse: "Deveria ser simples..."
A questão central por trás do sistema de Ptolomeu é que os gregos daquele tempo consideravam que o círculo, sendo a mais perfeita das formas, deveria estar presente nos céus, o locus por excelência da perfeição. Mas, ao considerar que as órbitas dos planetas eram circulares, surgiram uma série de inconsistências com os dados obtidos por meio das observações. Os planetas (que deriva do grego e significa "errantes") pareciam dançar nos céus e se recusar a obedecer órbitas circulares.
Ao invés de se renderem ao que estava na frente dos seus olhos, os gregos optaram por salvar a ideia da perfeição do círculo. Ptolomeu cria um sistema de epiciclos, uma espécie de micro-órbita dentro da órbita de cada planeta, tornando o sistema bastante complicado. A ideia da perfeição do círculo foi salva e durou mais de mil anos, até que Johannes Kepler mostrou que as órbitas eram na verdade elípticas.
Fazendo um paralelo entre essa história e a visão de grande parte das tradições religiosas em relação ao sentido da vida, perguntamos a essas tradições: qual é o objetivo da vida? Ouviremos uma resposta parecida com "a vida de cada pessoa tem um objetivo", ou, "todos tem uma missão a cumprir". Quase sempre, essas missões são bastante nobres, como casar, ter filhos, cuidar dos filhos, cuidar dos pais, ajudar aos pobres e necessitados, trazer ensinamentos, entre outras. Dificilmente ouviremos que a missão de alguém é, por exemplo, sofrer.
Apesar disso, as evidências nos mostram que existem muitas pessoas que nascem, sofrem e morrem, como crianças torturadas e mortas nos campos de concentração, crianças que nascem com doenças, deformidades ou deficiências gravíssimas, entre outras histórias tristes.
Para salvar suas ideias e não se render às evidências, as tradições religiosas criam, assim como Ptolomeu, seus epiciclos, fazendo remendos e mais remendos, como justificar o sofrimento de uns para o crescimento de outros, a dor de um inocente para que o culpado seja atingido, mundos diferentes para onde iremos depois de morrer, entre outras elucubrações. A ideia inicial da missão ou objetivo da vida parecia simples, mas com o tempo, torna-se algo muito complexo de se entender, cheio de artifícios e exceções à regra cujo único objetivo é apenas salvar a própria regra.
A vida, assim como o sistema planetário e tantas outras coisas, deve ser simples. Por isso, acredito que o objetivo da vida não pode ser outro a não ser o mais óbvio, viver. Isso explica muitas coisas, sem precisar de epiciclos.