sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O objetivo da vida é viver

Em uma cena do filme Alexandria (Agora, 2009), um dos alunos de Hipatia, ao se defrontar com o sistema astronômico de Ptolomeu, com seus complicados ciclos e epiciclos, disse: "Deveria ser simples..."

A questão central por trás do sistema de Ptolomeu é que os gregos daquele tempo consideravam que o círculo, sendo a mais perfeita das formas, deveria estar presente nos céus, o locus por excelência da perfeição. Mas, ao considerar que as órbitas dos planetas eram circulares, surgiram uma série de inconsistências com os dados obtidos por meio das observações. Os planetas (que deriva do grego e significa "errantes") pareciam dançar nos céus e se recusar a obedecer órbitas circulares.

Ao invés de se renderem ao que estava na frente dos seus olhos, os gregos optaram por salvar a ideia da perfeição do círculo. Ptolomeu cria um sistema de epiciclos, uma espécie de micro-órbita dentro da órbita de cada planeta, tornando o sistema bastante complicado. A ideia da perfeição do círculo foi salva e durou  mais de mil anos, até que Johannes Kepler mostrou que as órbitas eram na verdade elípticas.

Fazendo um paralelo entre essa história e a visão de grande parte das tradições religiosas em relação ao sentido da vida, perguntamos a essas tradições: qual é o objetivo da vida? Ouviremos uma resposta parecida com "a vida de cada pessoa tem um objetivo", ou, "todos tem uma missão a cumprir". Quase sempre, essas missões são bastante nobres, como casar, ter filhos, cuidar dos filhos, cuidar dos pais, ajudar aos pobres e necessitados, trazer ensinamentos, entre outras. Dificilmente ouviremos que a missão de alguém é, por exemplo, sofrer.

Apesar disso, as evidências nos mostram que existem muitas pessoas que nascem, sofrem e morrem, como crianças torturadas e mortas nos campos de concentração, crianças que nascem com doenças, deformidades ou deficiências gravíssimas, entre outras histórias tristes. 

Para salvar suas ideias e não se render às evidências, as tradições religiosas criam, assim como Ptolomeu, seus epiciclos, fazendo remendos e mais remendos, como justificar o sofrimento de uns para o crescimento de outros, a dor de um inocente para que o culpado seja atingido, mundos diferentes para onde iremos depois de morrer, entre outras elucubrações. A ideia inicial da missão ou objetivo da vida parecia simples, mas com o tempo, torna-se algo muito complexo de se entender, cheio de artifícios e exceções à regra cujo único objetivo é apenas salvar a própria regra.

A vida, assim como o sistema planetário e tantas outras coisas, deve ser simples. Por isso, acredito que o objetivo da vida não pode ser outro a não ser o mais óbvio, viver. Isso explica muitas coisas, sem precisar de epiciclos.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Por que não encarar a realidade?

Quem já perdeu algum ente querido, com certeza já ouviu uma daquelas frases-prontas-de-botequim-da-esquina, como por exemplo:

"Ele está melhor do que a gente agora"
"Ele está em um lugar melhor do que a gente"
"O tempo vai acalmar seu coração"
"Deus sabe o que faz"
"Deus sabe o que é melhor"

Por que as pessoas falam isso?
Alguém já esteve "do lado de lá" e voltou pra contar como é? Não!
Pois é, como é que podem afirmar isso?

Em relação à terceira frase, a minha experiência é que o tempo apenas tira aquele sofrimento do foco central da sua vida, mas toda vez que você se lembrar de tudo que passou, toda a dor volta, com a mesma intensidade de sempre. Ou seja, o tempo não apaga nada.

Quanto às duas últimas frases, fico pensando se as pessoas que as dizem vivem realmente no mesmo planeta que eu. Chego a cogitar a possibilidade delas terem sido chipadas pelos mesmos alienígenas que pegaram a Baby do Brasil (ex-Baby Consuelo). É só abrir qualquer jornal ou revista e pensar por que tantas pessoas sofrem no mundo.

Muita calma nessa hora, é para pensar como gente grande! Tem muita gente "experta" por aí enganando as pessoas com filosofias baratas. A mais clássica de todas diz respeito ao livre arbítrio. Segundo esses "especialistas", o sofrimento do mundo é decorrente do livre arbítrio, ou seja, Deus não pode interferir no mundo e impedir que as pessoas sofram por que Ele estaria suspendendo o livre arbítrio.

Uau! E agora? Como posso contestar essa "poderosa" ideia? Hum...
Bobagem, isso é a maior balela, facilmente empurrada goela abaixo de quem não quer se dar ao trabalho de pensar 30 segundos.

Posso até concordar que Deus não pode impedir genocídios, chacinas e guerras, por que isso tudo é feito pela vontade do homem, e apenas o homem seria responsável por esse sofrimento. Agora pense comigo um pouquinho. Toda pessoa que sofre, esse sofrimento é provocado por outra pessoa? Isto é, o sofrimento de alguém é sempre resultado do livre arbítrio da própria pessoa ou de outrem?

CLARO QUE NÃO!

Pense nas doenças congênitas. Quantas crianças nascem com graves defeitos de formação, e sofrem durante um longo tempo, até morrerem? Quem provocou isso? Foi o livre arbítrio de quem?

Chegando a esse "beco escuro", só vejo duas saídas: Deus é mal ou Deus não tem nada a ver com isso. Como duvido que alguém escolheria a primeira opção, vamos trabalhar com a segunda. Pois bem, Deus não tem nada a ver com isso, mas ele não é todo-poderoso? Por que só algumas crianças nessa situação recebem um suposto milagre? Como o longo sofrimento seguido de morte de uma criança pode ser o melhor para a própria criança? Se a resposta for que a vida do outro lado bla bla... volto a perguntar: alguém já voltou de lá para dizer alguma coisa?

Pensar que Deus é todo-poderoso, que pode acabar com o sofrimento dessas crianças e não o faz, é o mesmo que pensar que ele é mal. Mas, como descartamos essa possibilidade, a única conclusão possível é que Deus não é todo-poderoso.

Sendo assim, orações não fazem o menor sentido, assim como igrejas não fazem o menor sentido.

As pessoas falam todas essas coisas, acreditam em todas essas coisas, simplesmente por que não querem encarar a realidade. O maior medo da maioria das pessoas é morrer, e todas essas frases são na verdade a  manifestação de um desejo de que a realidade fosse diferente. Mas, infelizmente não é.

Eu sei que quase todos preferirão continuar acreditando nessas baboseiras. Sem problemas, o que importa mesmo é ser feliz, mesmo que para isso precisemos conviver com grandes mentiras.