quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Revoltas juvenis



Ouvi certa vez de uma pessoa com quem conversava a seguinte frase: “você está revoltado com Deus por causa do que aconteceu com seu filho”. Naquela ocasião, era procedente a colocação daquela pessoa, mas hoje não é mais, por vários motivos que explicarei a seguir.

Essa frase aparentemente inocente e sem maiores pretensões esconde um universo inteiro de intenções. A primeira coisa que é preciso destacar é que a pessoa que me dirigiu essa pequena pérola em forma de frase pertencia a uma religião tradicional, e não acredito tratar-se de um caso isolado. Acredito que nas pequenas coisas encontram-se indícios para as grandes coisas. Esse tipo de comentário é algo muito comum por parte de religiosos, e quando não é exteriorizado, costuma ser pensado. Mas afinal, o que tem de tão especial nessa frase?

Basicamente, a frase não explica nada, não consola, não conforta, não indica caminhos, possibilidades, respostas, enfim, é vazia de significados para quem está sofrendo, mas repleta de intenções para quem se acha conhecedor da Verdade (se é que existe uma). Ao tomar conhecimento de histórias tristes, os próprios fiéis, de qualquer religião que seja, precisam “apagar o incêndio”, não deixar que o vírus da dúvida plantada com a revolta de quem sofre contamine suas mentes. Essa pérola em forma de frase serve muito mais como “resposta” para quem compartilha de alguma fé religiosa do que para quem duvida dela.

Claro que, para quem sofre, ela está longe de ser uma resposta, simplesmente por que não responde nada. Contudo, imaginemos que seja verdade que pessoas passando por situações críticas em suas vidas duvidem de Deus e até blasfemem contra Ele. Não seria o caso de contra-argumentar as dúvidas com algumas palavras de mínima sabedoria? Por que a dúvida se tornaria ilegítima apenas e tão somente pelo fato de ser decorrente de um momento de fúria?

Para fazer uma analogia, seria mais ou menos como se um aluno, revoltado com seus estudos de matemática, perguntasse aos berros para o professor: “que droga! Não suporto mais isso! Por que o quadrado da hipotenusa é a soma dos quadrados dos catetos? Por quê?” e o professor, ao chegar bem perto, pegar na mão do aluno, olhar nos olhos dele, desse um suspiro e dissesse: “vai passar, você só está revoltado, vai passar”.

É claro que essa analogia pode parecer forçada para algumas pessoas, e de certa forma, eu até concordaria com elas se dissessem “mas nem tudo tem resposta como na matemática”. Ótimo! Então por que não dizer para uma pessoa que está sofrendo “sinto muito, eu não tenho uma resposta”? Por que, ao invés disso, tenta-se responder o que não tem resposta, e o pior, com uma pseudo resposta como a pérola apresentada acima?

Outra coisa que é preciso esclarecer é que quem diz essa frase, em geral, não consegue imaginar que alguém possa viver sem acreditar em Deus. As pessoas que acreditam verdadeiramente em Deus imaginam que, mesmo aqueles que se dizem ateus, no fundo o fazem por raiva ou revolta por alguma perda ou fracasso sofridos na vida, ou até por inveja do que os “abençoados por Deus” alcançaram. Aliado ao fato de que não faz sentido estar revoltado contra algo que não se acredita, terminam por concluir que a revolta vai passar e a pessoa vai aceitar seu destino.

Além de extremamente egoístas, são pensamentos muito limitados e típicos dos pensamentos difundidos por adoradores de deuses espalhados mundo afora, principalmente da cultura judaico-cristã, que agarram-se às suas “frágeis verdades” e precisam, desesperadamente e o tempo todo, justificá-las para mantê-las isoladas e protegidas de todo e qualquer ataque que possa perturbar a calmaria e a complacência do seu mar de ignorância.

Qualquer dúvida, por mais simples e frugal que seja, como aquelas que nascem das inocentes (porém pertinentes!) perguntas das crianças, não são bem vindas em praticamente nenhuma religião. Pseudo respostas como “é assim”, “Deus fez assim”, “Deus quis assim” ou “um dia você vai entender” são as mais comuns, e seus objetivos são claríssimos, afastar as nuvens negras antes que comecem a chover dúvidas mais profundas. Essa última, aliás, seria uma das mais sinceras se mudasse para “um dia você vai esquecer”.

Em geral, é isso que acontece quando crescemos, esquecemos as questões fundamentais, seja por que nos acostumamos com as respostas que os adultos nos deram na infância, seja por que cansamos de procurar por elas, seja por que as tarefas do cotidiano nos atropelaram como um rolo compressor.  Em qualquer caso, turbulências da vida tem o importantíssimo papel de trazer à tona novamente a criança que deixamos adormecida lá no fundo para perguntar “Deus existe? Por que então Ele não aparece para gente? Ele não quer que a gente o veja? Por que as pessoas tem que sofrer?”

Viva a revolta juvenil!

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