segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Vilarejos medievais - gratidão ou egoísmo?

As principais religiões do mundo conservam rituais, crenças e costumes medievais, que quase sempre não estão abertos para discussões e/ou atualizações para a realidade do século XXI. Ok, não vim até aqui discutir rituais e crenças. Rituais e crenças são rituais e crenças, não acabe analisar se estão certos, errados, coerentes, etc. O problema que me incomoda são os pensamentos medievais por detrás dos rituais, crenças e costumes.

Para as pessoas que viviam em um vilarejo da Europa feudal no ano 1000, a realidade do mundo era a realidade do vilarejo. Simplesmente não se conheciam terras distantes, nem mesmo se sabia da existência de terras distantes. Os primeiros mapas mundi apresentavam monstros povoando os mares e as terras distantes. As notícias do lado de fora dos muros do vilarejo não chegavam, e quando chegavam, demoravam semanas ou até meses. Assim, se o vilarejo fosse rico e próspero, não haveria motivo para acreditar na pobreza ou na miséria.

Hoje, em plena era da Internet e das comunicações móveis, onde é possível saber tudo que acontece com qualquer pessoa no mundo em tempo real, por incrível que pareça, ainda tem gente vivendo como se vivesse nesse vilarejo isolado do mundo. Não por que vive em situação de risco social em áreas de grande pobreza (no mundo ainda existe muito lugar assim), muito pelo contrário, tem acesso às melhores condições sociais que as melhores cidades do mundo podem oferecer para quem tem dinheiro, mas por que estão cegas pelo pensamento medieval do vilarejo, que as impede de ver por cima dos muros.

Será que quando você agradece a Deus pela comida que está prestes a comer, sabendo que uma pessoa está morrendo de fome naquele exato instante em algum lugar do mundo, você não está sendo egoísta? Será que quando você agradece a Deus pela sua saúde ou de seus filhos, sabendo que naquele exato instante muitos pais estão lutando pelas vidas de seus filhos nos hospitais, você não está sendo egoísta? Será que quando você agradece a Deus pelo livramento de sua vida ou de algum parente, sabendo que milhares de pessoas morreram e ainda vão morrer mundo afora vítimas de desabamentos, incêndios, afogamentos ou catástrofes naturais, você não está sendo egoísta? Pelo raciocínio medieval dos vilarejos prósperos isolados do resto mundo, provavelmente tudo isso seria considerado a mais pura e honesta gratidão.

Só que nos dias de hoje isso não faz nenhum sentido para mim. É como se, subitamente, os camponeses do século X fossem transportados para o futuro e equipados com iPhones e iPads, acessando o Facebook e dizendo: "obrigado Deus pela colheita deste ano". Total anacronismo.



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