segunda-feira, 4 de junho de 2012

Babaquice fantástica

Não costumo mais assistir ao programa Fantástico, exibido pela Rede Globo há não sei quantas décadas no horário nobre da família brasileira, mas no dia 3 de junho de 2012, duas espiadas foram suficientes para me deixar espantado com o que vi/ouvi.

Foram duas entrevistas, com dois pais que passaram por situações difíceis com seus filhos. Eu não sei se as pessoas notaram as semelhanças, mas o comediante Paulo Silvino e o cantor Leonardo, em seus depoimentos, disseram praticamente a mesma coisa.

Leonardo disse acreditar que a recuperação de seu filho Pedro Leonardo, que passou uma temporada na UTI em estado grave devido a um acidente automobilístico se devia a um milagre. Paulo Silvino, com outras palavras também creditou a Deus a recuperação de seu filho Flávio Silvino, também vítima de um acidente de carro.

O depoimento de Silvino foi mais dramático, cheio de emoção, quando ele contou com mais detalhes como teria sido sua conversa com Deus. Foi mais ou menos assim:

"Deus, você não tem como não fazer esse milagre, o Brasil inteiro está pedindo, está orando, e olha, vai ser um grande marketing para você. Do contrário, se você não fizer, as pessoas podem duvidar da sua existência..."


Será que alguém se deu conta da insanidade que essa pessoa disse? Entendemos que se tratava de um momento difícil, mas não há como não perceber agora que ele praticamente chantageou Deus, e o que é muito pior, esqueceu ou desconsiderou que milhares de pais fizeram pedidos igualmente desesperados e tresloucados no intuito de salvar seus filhos de situações igualmente extremas, mas não obtiveram a mesma resposta.

O que será que acontece? Deus só atende aos pedidos se devidamente chantageado? Ele desejava matar o Flávio Silvino, mas como houve uma comoção nacional, além da chantagem do pai, Ele se sentiu obrigado a realizar um milagre? Por que Deus permite que crianças sejam vítimas de câncer e pereçam por meses ou anos em um leito de hospital,  ou que sejam queimadas ou jogadas na lata do lixo por suas mães, ou ainda que cresçam com graves limitações físicas ou mentais? Ele estaria muito ocupado em realizar milagres para reestabelecer garotos velozes e furiosos ao volante?

Acreditar nesse tipo de Deus não seria uma babaquice fantástica?


segunda-feira, 28 de março de 2011

Contra quem se revoltar?

Perder um filho não é o fim do mundo, é um pouco pior. Dizem que a dor do parto é a mais forte que um ser humano pode experimentar. Pode até ser, mas ela dura alguns minutos e é seguida por uma alegria que está só começando. Perder um filho é justamente o contrário, pois a dor começa depois que eles se vão.

Todos dizem que essa dor diminui com o tempo. Nos primeiros dias, porém, ela parece que aumenta, é o que chamam de "tempo da ficha cair". Simplesmente não era possível acreditar que ele não estaria mais conosco, e sempre que chegava em casa, sentia que ele estaria lá, me esperando como sempre fazia. Em cada cômodo vazio as lembranças brotavam facilmente, e imediatamente eram seguidas de lágrimas. Lágrimas de saudade, mas também de muita revolta.

Com mais de dois meses sem o meu filho, ainda é difícil deitar à noite e dormir um sono tranquilo. Todas as lembranças do hospital e do sofrimento pelo qual ele teve que passar vem à mente, e nenhuma palavra que me disseram, nenhum raciocínio (e tentei vários!) foi ainda capaz de me consolar, de sarar a ferida da sua partida.

É um misto de raiva com estupidez, pois não é possível direcionar essa raiva para alguém. Vou explicar.

Quando o filho de alguém é assassinado, em geral a família embarca em uma luta para que a justiça condene o culpado. De uma certa forma, essa luta dá algum sentido para a vida dessas famílias, que são destruídas com a perda trágica dos filhos.

Quando o filho morre em um acidente, em geral também é possível encontrar um culpado. Mas, e no caso de perder um filho para uma doença grave como a leucemia, contra quem eu vou me revoltar? Quem foi o culpado pela morte dele? Quem foi culpado pelo aparecimento da doença e pelo sofrimento pelo qual ele passou em quase 3 anos de tratamento? É justo uma criança vir ao mundo e não conhecer o mar, não correr, não sair de casa para se divertir, e como se ainda não bastasse, sofrer dores físicas e torturas psicológicas?

É por isso que a raiva que sinto é estúpida, eu não posso direcioná-la para nenhuma pessoa. Será então que eu posso culpar a Natureza?

De uma certa forma sim, por que a doença aparece por alguma falha genética, que é o cerne da Natureza, ou é a própria Natureza. Mas, de uma certa forma não, por que essa doença também se distribui aleatoriamente na população, e da mesma forma que meu filho foi "sorteado" , milhões de crianças não foram, e seus pais provavelmente agradecem a Deus por isso.

E eu, faço o que?

sexta-feira, 18 de março de 2011

Quando não souber o que dizer, não diga nada!

É incrível como as pessoas falam coisas o tempo todo, mesmo quando não possuem nenhuma opinião formada sobre o assunto. Um caso típico acontece sempre que alguém pergunta sobre uma pessoa e descobre que essa pessoa morreu; sem saber o que dizer, e sem pensar um segundo sequer, já mandam logo uma frase do tipo :"Deus sabe o que faz!", ou "Deus sabe o que é melhor". Alguns dizem isso até com certo grau de convicção. Quanto engano...quanta besteira...

Será que alguém já parou pra pensar que para um pai que perde um filho, isso nunca pode significar algo bom? Como vai ser melhor? Tem algum cabimento isso? O pai vai ficar mais feliz sem o filho? E para uma criança que perde os pais? Como vai ser a vida dela? Vai ser melhor crescer sem a presença dos pais?

Quem sou eu para saber as respostas de todas as coisas, mas as pessoas deveriam pelo menos pensar um pouco antes de falar qualquer bobagem.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Qual é a melhor religião?

Recebi esse texto por email, um daqueles intermináveis Fwd que não costumo abrir, mas o título me chamou a atenção e resolvi ler. Dizia o seguinte:

Breve diálogo entre o teólogo brasileiro Leonardo Boff e o Dalai Lama.
Leonardo Boff explica:


"No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos,
na qual ambos (eu e o Dalai Lama) participávamos,
eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico,
lhe perguntei em meu inglês capenga:
- "Santidade, qual é a melhor religião?" (Your holiness, what`s the best religion?)
Esperava que ele dissesse:
"É o budismo tibetano" ou "São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo."
O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos
- o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia
contida na pergunta - e afirmou: "A melhor religião é a que mais
te aproxima de Deus, do Infinito".É aquela que te faz melhor."
Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta,
voltei a perguntar:
- "O que me faz melhor?"
Respondeu ele:
-"Aquilo que te faz mais compassivo" (e aí senti a ressonância tibetana, budista,
taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado,
mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... Mais ético...
A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião..."
Calei, maravilhado, e até os dias de hoje
estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável...
Não me interessa amigo, a tua religião ou mesmo se tem ou não tem religião.
O que realmente importa é a tua conduta perante o teu semelhante, tua família, teu trabalho, tua comunidade, perante o mundo...
Lembremos:
"O Universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos".
A Lei da Ação e Reação não é exclusiva da Física. Ela está também nas relações humanas. Se eu ajo com o bem, receberei o bem. Se ajo com o mal, receberei o mal.
Aquilo que nossos avós nos disseram é a mais pura verdade: "terás sempre em dobro aquilo que desejares aos outros".
Para muitos, ser feliz não é questão de destino. É de escolha.


Pense nisso.


Realmente é bonito, principalmente a parte do Dalai, mas tenho que discordar do final. A lei da ação e reação não existe. Quantas pessoas que só fazem o bem não receberam uma bala perdida? Quantas pessoas que só fazem o mal e nada de mal acontece a elas?   Infelizmente não existe justiça divina, e essa estória de ação e reação é uma espécie de justiça divina disfarçada. 
Perdi um filho de 3 anos e 4 meses, sendo que por 2 anos e 8 meses ele sofreu diariamente torturas físicas e psicológicas de um tratamento para combater a leucemia.

Qual a justiça nessa história? O que ele fez de mal ao universo para merecer isso?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Frases de efeito (ou com defeito)?

Hoje li a seguinte frase num local público: "Deus movimenta um mundo para fazer o impossível, mas não mexe uma palha para fazer o que o homem pode fazer." O que acharam?

Forte né? Tem um efeito incrível! Mas trata-se de uma grande besteira...

A doença do meu filho era incurável para os médicos, portanto, nenhum homem podia fazer nada. E no entanto, Deus não agiu, não fez o impossível. E fatos semelhantes acontecem todos os dias, todas as horas. É que as pessoas não costumam fazer visitas aos hospitais para conhecer o mundo real, preferem continuar pronunciando suas impactantes frases de efeito do mundo imaginário.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O documento que lutamos para não ter

Nossa vida é pautada por documentos, que nada mais são do que declarações para outrem de que nós somos nós mesmos, tais como RG e CPF, ou, declarações de que temos algumas habilidades, tais como CNH, diplomas e certificados. Sem os documentos é impossível viver em qualquer civilização, e em geral, lutamos muito para consegui-los.

Qual de nós já não comemorou a conquista de alguns desses documentos? A felicidade de ser aprovado no exame de direção para conseguir a tão cobiçada Carteira Nacional de Habilitação é um exemplo. E em relação a diplomas, todos nós já nos sentimos orgulhosos por terminar algum curso, seja de aperfeiçoamento, graduação ou até mesmo pós-graduação. São marcos na vida de qualquer um.

Caros amigos, existe, porém, pelo menos um documento pelo qual lutamos muito para não ter. Trata-se da certidão de óbito de algum ente querido. Eu já assinei meu diploma de Mestrado, com muito orgulho, mas, também tive que assinar a certidão de óbito do meu filho, de apenas três anos de idade, após muita luta, muita dedicação para que não precisasse fazer isso. Mas não teve outro jeito.

Ao preencher uma ficha com os dados que constarão na certidão de óbito, existe um campo assim: Deixou bens? Deixou herdeiros? Foi instantâneo, tive vontade de puxar um quadradinho e escrever "Deixou saudades, muitas saudades".

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Desabafo de um pai

De antemão peço desculpas a todos por incomodá-los com o meu problema e o de minha família, mas a situação é tão desesperadora que escrever é a única forma de desabafar nesse momento.

Suportei todas as notícias ruins, todas as recaídas, todas as internações e todas as sessões de tortura pelas quais o Enrique passou nesses três anos na intimidade dos parentes mais próximos, e desde quando criei o blog meninoenrique, a intenção era incentivar o cadastramento de medula, e prometi a mim mesmo não colocar questões pessoais aqui. Por isso publico no Infinitos.

Nesses anos de internação, principalmente nesse ano que está acabando, fiquei mais no hospital do que em casa, e pude refletir muito, inúmeras vezes, incontáveis minutos, sozinho em uma área externa do hospital. Lá eu chorei, lá eu xinguei, lá eu conversei comigo mesmo, lá eu discuti com Deus.

Com exceção dos familiares mais próximos, quase ninguém nos visitou, deixando-nos em completo isolamento nesses mais de três anos. Uma parcela da culpa é nossa, reconheço, por dizer que o Enrique não podia receber visitas. Mas, isso foi lá em idos de 2008...muitos nunca mais ligaram pra saber se a situação mudou, ou pelo menos pra saber se o Enrique ainda está vivo...na verdade, a realidade é um pouco pior, muitos parentes nem mesmo conhecem o Enrique.


Mas, apesar de tudo, não os culpo por isso. Acho que cada um só deve fazer o que sentir vontade. Abomino a falsidade, o pior defeito do ser humano na minha humilde opinião. Não cabe a mim julgar ninguém, e não guardo mágoa no meu coração. Apenas acho que quem passa pela situação que estamos passando não é obrigado a ficar dando satisfações e informando um por um sobre as "novidades". Por isso, acho também que nos esquecer (ou nos deixar de lado, o que dá quase no mesmo) foi uma decisão que muitos amigos e/ou parentes tomaram. Respeitamos essa decisão.

Pois bem, por outro lado, o isolamento me fez pensar várias coisas, e nesse ponto, agradeço àqueles que não foram me visitar por me proporcionarem esse encontro comigo mesmo. Foram muitos momentos naquela área externa do hospital, em completo isolamento, que rezei, chorei, implorei e até me revoltei, enquanto Enrique sofria algum tipo de tortura, física ou mental, naquele cárcere privado.


A primeira coisa que refleti é que só pensa nas coisas que pensei aquela pessoa que passa por uma situação extrema, onde a sua própria vida ou de um ente querido é seriamente ameaçada. Pensei por exemplo, que exceto em casos de guerra, o curso natural da vida é os filhos perderem os pais. Quando ocorre o inverso, devemos pensar.


É claro que não perdemos o Enrique. Ele continua lutando bravamente. Mas, pelo menos uma vez na vida, sejamos menos egóistas e pensemos nos outros. Conhecemos pais e mães que perderam seus filhos naquele hospital, em situação muito semenlhante à nossa, e sentimos a dor que eles sentiram, pelo menos por alguns instantes.


É inevitável pensar em justiça (ou na falta dela) nesses momentos. Por que uma criança tem que sofrer tanto? Será que existe uma resposta para isso? Se Deus sabe de todas as coisas, então sabe que a criança não vai resistir, por que não abrevia o sofrimento dela? Se os pais devem algo, por que a criança tem que pagar por eles?



Refleti muito sobre essas questões, muito mesmo, principalmente neste ano que está acabando. Procurei as respostas, e como as procurei. Fui à Bíblia e encontrei um livro cheio de contradições, uma colcha de retalhos passível de praticamente qualquer tipo de interpretação. Fui ao espiritismo, destrinchei todo o "Livro dos Espíritos" de Kardec, mas nada sossegou meu coração desesperado de pai, que vê o filho sofrendo dia após dia, podendo fazer muito pouco para amenizar seu sofrimento.


É claro que trata-se de falta de fé, muitos de vocês dirão. Eu reconheço que minha fé diminuiu consideravelmente depois da segunda e principalmente agora da terceira recaída do Enrique. É que a razão sempre falou mais alto na minha cabeça. Se o próprio Deus nos deu a inteligência, por que não podemos usá-la para refletir sobre Ele? Por que devemos aceitar tudo que o Padre ou o Pastor dizem?

Pensando com a minha própria cabeça, concluí que as respostas que procurei não existem. Deus não tem nada a ver com a doença do meu filho e de muitas outras crianças. Mas se Ele tudo sabe e tudo pode, por que não interferiu? Ou, por que interferiu em alguns casos enquanto em outros deixou que sofressem? São os planos de Deus? Ele sabe o que é melhor para todos?


Com certeza, não é melhor para os pais perderem seu filho na mais tenra idade, sem nada da vida ter aproveitado. Lembrei também de uma criança que perdeu o pai e a mãe em um acidente de carro. Com certeza, não foi melhor para ela ficar sozinha no mundo sem os pais.

Minha conclusão foi a seguinte: Deus não decide essas coisas. O acaso decide. É melhor que seja assim. Do contrário, Ele poderia ser considerado cruel, torturador e insensível, e acho que ninguém concordaria que Deus tivesses essas qualidades. Ninguém lá em cima olha por nós. Que assim seja.