terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Desabafo de um pai

De antemão peço desculpas a todos por incomodá-los com o meu problema e o de minha família, mas a situação é tão desesperadora que escrever é a única forma de desabafar nesse momento.

Suportei todas as notícias ruins, todas as recaídas, todas as internações e todas as sessões de tortura pelas quais o Enrique passou nesses três anos na intimidade dos parentes mais próximos, e desde quando criei o blog meninoenrique, a intenção era incentivar o cadastramento de medula, e prometi a mim mesmo não colocar questões pessoais aqui. Por isso publico no Infinitos.

Nesses anos de internação, principalmente nesse ano que está acabando, fiquei mais no hospital do que em casa, e pude refletir muito, inúmeras vezes, incontáveis minutos, sozinho em uma área externa do hospital. Lá eu chorei, lá eu xinguei, lá eu conversei comigo mesmo, lá eu discuti com Deus.

Com exceção dos familiares mais próximos, quase ninguém nos visitou, deixando-nos em completo isolamento nesses mais de três anos. Uma parcela da culpa é nossa, reconheço, por dizer que o Enrique não podia receber visitas. Mas, isso foi lá em idos de 2008...muitos nunca mais ligaram pra saber se a situação mudou, ou pelo menos pra saber se o Enrique ainda está vivo...na verdade, a realidade é um pouco pior, muitos parentes nem mesmo conhecem o Enrique.


Mas, apesar de tudo, não os culpo por isso. Acho que cada um só deve fazer o que sentir vontade. Abomino a falsidade, o pior defeito do ser humano na minha humilde opinião. Não cabe a mim julgar ninguém, e não guardo mágoa no meu coração. Apenas acho que quem passa pela situação que estamos passando não é obrigado a ficar dando satisfações e informando um por um sobre as "novidades". Por isso, acho também que nos esquecer (ou nos deixar de lado, o que dá quase no mesmo) foi uma decisão que muitos amigos e/ou parentes tomaram. Respeitamos essa decisão.

Pois bem, por outro lado, o isolamento me fez pensar várias coisas, e nesse ponto, agradeço àqueles que não foram me visitar por me proporcionarem esse encontro comigo mesmo. Foram muitos momentos naquela área externa do hospital, em completo isolamento, que rezei, chorei, implorei e até me revoltei, enquanto Enrique sofria algum tipo de tortura, física ou mental, naquele cárcere privado.


A primeira coisa que refleti é que só pensa nas coisas que pensei aquela pessoa que passa por uma situação extrema, onde a sua própria vida ou de um ente querido é seriamente ameaçada. Pensei por exemplo, que exceto em casos de guerra, o curso natural da vida é os filhos perderem os pais. Quando ocorre o inverso, devemos pensar.


É claro que não perdemos o Enrique. Ele continua lutando bravamente. Mas, pelo menos uma vez na vida, sejamos menos egóistas e pensemos nos outros. Conhecemos pais e mães que perderam seus filhos naquele hospital, em situação muito semenlhante à nossa, e sentimos a dor que eles sentiram, pelo menos por alguns instantes.


É inevitável pensar em justiça (ou na falta dela) nesses momentos. Por que uma criança tem que sofrer tanto? Será que existe uma resposta para isso? Se Deus sabe de todas as coisas, então sabe que a criança não vai resistir, por que não abrevia o sofrimento dela? Se os pais devem algo, por que a criança tem que pagar por eles?



Refleti muito sobre essas questões, muito mesmo, principalmente neste ano que está acabando. Procurei as respostas, e como as procurei. Fui à Bíblia e encontrei um livro cheio de contradições, uma colcha de retalhos passível de praticamente qualquer tipo de interpretação. Fui ao espiritismo, destrinchei todo o "Livro dos Espíritos" de Kardec, mas nada sossegou meu coração desesperado de pai, que vê o filho sofrendo dia após dia, podendo fazer muito pouco para amenizar seu sofrimento.


É claro que trata-se de falta de fé, muitos de vocês dirão. Eu reconheço que minha fé diminuiu consideravelmente depois da segunda e principalmente agora da terceira recaída do Enrique. É que a razão sempre falou mais alto na minha cabeça. Se o próprio Deus nos deu a inteligência, por que não podemos usá-la para refletir sobre Ele? Por que devemos aceitar tudo que o Padre ou o Pastor dizem?

Pensando com a minha própria cabeça, concluí que as respostas que procurei não existem. Deus não tem nada a ver com a doença do meu filho e de muitas outras crianças. Mas se Ele tudo sabe e tudo pode, por que não interferiu? Ou, por que interferiu em alguns casos enquanto em outros deixou que sofressem? São os planos de Deus? Ele sabe o que é melhor para todos?


Com certeza, não é melhor para os pais perderem seu filho na mais tenra idade, sem nada da vida ter aproveitado. Lembrei também de uma criança que perdeu o pai e a mãe em um acidente de carro. Com certeza, não foi melhor para ela ficar sozinha no mundo sem os pais.

Minha conclusão foi a seguinte: Deus não decide essas coisas. O acaso decide. É melhor que seja assim. Do contrário, Ele poderia ser considerado cruel, torturador e insensível, e acho que ninguém concordaria que Deus tivesses essas qualidades. Ninguém lá em cima olha por nós. Que assim seja.

2 comentários:

Unknown disse...

Geraldo, sinto muito mesmo pelo Enrique, não consigo imaginar a dor que vocês estão sentindo... Sinto também por não ter procurado mais por vocês, não foi esquecimento, mas também não tem desculpas!!
Perdi minha avó em dezembro, ainda estou triste, mas é da natureza, os avós se vão antes dos netos. Mas um filho, não tenho palavras.... Acho que agora temos que pensar que o Enrique não está mais sofrendo, e deve estar olhando por vocês de onde ele estiver... como um anjinho que ele era...
Que Deus os abençoe!!!
Elisama e família.

Geraldo disse...

Olá Elisama.
Obrigado pelo comentário e não precisa se desculpar de nada.
Abraços.