Qual é o sentido da vida? Pergunta mais sem sentido não há!
Formulada assim, secamente, esconde um pressuposto vital, o da existência do sentido da vida.
Pois bem, só faz sentido responder a essa pergunta se formos capazes de responder uma pergunta anterior: existe algum sentido para a vida? Se a resposta for sim, faz sentido passar para a pergunta seguinte, mas se for não, estamos diante de um engodo em forma de pergunta.
Respostas do tipo "tem que haver um sentido" ou "não faz sentido uma vida sem sentido" não são exatamente respostas, ou, como alguns preferem chamar, são respostas circulares, pois retornam ao ponto inicial sem efetivamente responder nada. Na verdade, explica-se essas"respostas" pelo desejo do ser humano de ser querido, de não estar só e de que alguém o esteja cuidando, como os pais faziam quando eram crianças.
Apesar de criticada até mesmo no meio cientifico, a teoria da evolução ainda é a explicação mais razoável para a viabilidade da vida na Terra , e um dos seus principais componentes é a aleatoriedade das mutações, dando suporte e fornecendo as condições para a seleção natural atuar. O resultado final de milhões de anos de evolução é comumente confundido com a existência de um designer do universo, tamanha a suposta perfeição que os organismos atingem.
A tão propalada perfeição é muitas vezes usada para "provar" a existência de deus, e consequentemente, do sentido da vida. Não existe falácia maior do que a da perfeição da natureza. Esse mito da perfeição caiu há centenas de anos quando Galileu mostrou as imperfeições dos astros com seu telescópio, e bastava que as pessoas quisessem se informar um pouco mais para saber que existem falhas no pareamento dos genes, provocando doenças congênitas, oscilações no eixo de rotação da Terra, imprevisibilidade do clima, entre outros fatores que apontam para a não existência da perfeição.
Portanto, na ausência de uma resposta positiva para a existência do sentido da vida, não faz sentido proceder para a pergunta seguinte. O que nao significa que alguém nao possa acreditar que exista um sentido A ou B. Alias, é justamente pela falta de uma resposta definitiva para essa pergunta que todas as principais religiões do mudo surgiram, oferecendo o seu produto-resposta.
domingo, 1 de dezembro de 2013
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Vilarejos medievais - gratidão ou egoísmo?
As principais religiões do mundo conservam rituais, crenças e costumes medievais, que quase sempre não estão abertos para discussões e/ou atualizações para a realidade do século XXI. Ok, não vim até aqui discutir rituais e crenças. Rituais e crenças são rituais e crenças, não acabe analisar se estão certos, errados, coerentes, etc. O problema que me incomoda são os pensamentos medievais por detrás dos rituais, crenças e costumes.
Para as pessoas que viviam em um vilarejo da Europa feudal no ano 1000, a realidade do mundo era a realidade do vilarejo. Simplesmente não se conheciam terras distantes, nem mesmo se sabia da existência de terras distantes. Os primeiros mapas mundi apresentavam monstros povoando os mares e as terras distantes. As notícias do lado de fora dos muros do vilarejo não chegavam, e quando chegavam, demoravam semanas ou até meses. Assim, se o vilarejo fosse rico e próspero, não haveria motivo para acreditar na pobreza ou na miséria.
Hoje, em plena era da Internet e das comunicações móveis, onde é possível saber tudo que acontece com qualquer pessoa no mundo em tempo real, por incrível que pareça, ainda tem gente vivendo como se vivesse nesse vilarejo isolado do mundo. Não por que vive em situação de risco social em áreas de grande pobreza (no mundo ainda existe muito lugar assim), muito pelo contrário, tem acesso às melhores condições sociais que as melhores cidades do mundo podem oferecer para quem tem dinheiro, mas por que estão cegas pelo pensamento medieval do vilarejo, que as impede de ver por cima dos muros.
Será que quando você agradece a Deus pela comida que está prestes a comer, sabendo que uma pessoa está morrendo de fome naquele exato instante em algum lugar do mundo, você não está sendo egoísta? Será que quando você agradece a Deus pela sua saúde ou de seus filhos, sabendo que naquele exato instante muitos pais estão lutando pelas vidas de seus filhos nos hospitais, você não está sendo egoísta? Será que quando você agradece a Deus pelo livramento de sua vida ou de algum parente, sabendo que milhares de pessoas morreram e ainda vão morrer mundo afora vítimas de desabamentos, incêndios, afogamentos ou catástrofes naturais, você não está sendo egoísta? Pelo raciocínio medieval dos vilarejos prósperos isolados do resto mundo, provavelmente tudo isso seria considerado a mais pura e honesta gratidão.
Só que nos dias de hoje isso não faz nenhum sentido para mim. É como se, subitamente, os camponeses do século X fossem transportados para o futuro e equipados com iPhones e iPads, acessando o Facebook e dizendo: "obrigado Deus pela colheita deste ano". Total anacronismo.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
O objetivo da vida é viver
Em uma cena do filme Alexandria (Agora, 2009), um dos alunos de Hipatia, ao se defrontar com o sistema astronômico de Ptolomeu, com seus complicados ciclos e epiciclos, disse: "Deveria ser simples..."
A questão central por trás do sistema de Ptolomeu é que os gregos daquele tempo consideravam que o círculo, sendo a mais perfeita das formas, deveria estar presente nos céus, o locus por excelência da perfeição. Mas, ao considerar que as órbitas dos planetas eram circulares, surgiram uma série de inconsistências com os dados obtidos por meio das observações. Os planetas (que deriva do grego e significa "errantes") pareciam dançar nos céus e se recusar a obedecer órbitas circulares.
Ao invés de se renderem ao que estava na frente dos seus olhos, os gregos optaram por salvar a ideia da perfeição do círculo. Ptolomeu cria um sistema de epiciclos, uma espécie de micro-órbita dentro da órbita de cada planeta, tornando o sistema bastante complicado. A ideia da perfeição do círculo foi salva e durou mais de mil anos, até que Johannes Kepler mostrou que as órbitas eram na verdade elípticas.
Fazendo um paralelo entre essa história e a visão de grande parte das tradições religiosas em relação ao sentido da vida, perguntamos a essas tradições: qual é o objetivo da vida? Ouviremos uma resposta parecida com "a vida de cada pessoa tem um objetivo", ou, "todos tem uma missão a cumprir". Quase sempre, essas missões são bastante nobres, como casar, ter filhos, cuidar dos filhos, cuidar dos pais, ajudar aos pobres e necessitados, trazer ensinamentos, entre outras. Dificilmente ouviremos que a missão de alguém é, por exemplo, sofrer.
Apesar disso, as evidências nos mostram que existem muitas pessoas que nascem, sofrem e morrem, como crianças torturadas e mortas nos campos de concentração, crianças que nascem com doenças, deformidades ou deficiências gravíssimas, entre outras histórias tristes.
Para salvar suas ideias e não se render às evidências, as tradições religiosas criam, assim como Ptolomeu, seus epiciclos, fazendo remendos e mais remendos, como justificar o sofrimento de uns para o crescimento de outros, a dor de um inocente para que o culpado seja atingido, mundos diferentes para onde iremos depois de morrer, entre outras elucubrações. A ideia inicial da missão ou objetivo da vida parecia simples, mas com o tempo, torna-se algo muito complexo de se entender, cheio de artifícios e exceções à regra cujo único objetivo é apenas salvar a própria regra.
A vida, assim como o sistema planetário e tantas outras coisas, deve ser simples. Por isso, acredito que o objetivo da vida não pode ser outro a não ser o mais óbvio, viver. Isso explica muitas coisas, sem precisar de epiciclos.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Por que não encarar a realidade?
Quem já perdeu algum ente querido, com certeza já ouviu uma daquelas frases-prontas-de-botequim-da-esquina, como por exemplo:
"Ele está melhor do que a gente agora"
"Ele está em um lugar melhor do que a gente"
"O tempo vai acalmar seu coração"
"Deus sabe o que faz"
"Deus sabe o que é melhor"
Por que as pessoas falam isso?
Alguém já esteve "do lado de lá" e voltou pra contar como é? Não!
Pois é, como é que podem afirmar isso?
Em relação à terceira frase, a minha experiência é que o tempo apenas tira aquele sofrimento do foco central da sua vida, mas toda vez que você se lembrar de tudo que passou, toda a dor volta, com a mesma intensidade de sempre. Ou seja, o tempo não apaga nada.
Quanto às duas últimas frases, fico pensando se as pessoas que as dizem vivem realmente no mesmo planeta que eu. Chego a cogitar a possibilidade delas terem sido chipadas pelos mesmos alienígenas que pegaram a Baby do Brasil (ex-Baby Consuelo). É só abrir qualquer jornal ou revista e pensar por que tantas pessoas sofrem no mundo.
Muita calma nessa hora, é para pensar como gente grande! Tem muita gente "experta" por aí enganando as pessoas com filosofias baratas. A mais clássica de todas diz respeito ao livre arbítrio. Segundo esses "especialistas", o sofrimento do mundo é decorrente do livre arbítrio, ou seja, Deus não pode interferir no mundo e impedir que as pessoas sofram por que Ele estaria suspendendo o livre arbítrio.
Uau! E agora? Como posso contestar essa "poderosa" ideia? Hum...
Bobagem, isso é a maior balela, facilmente empurrada goela abaixo de quem não quer se dar ao trabalho de pensar 30 segundos.
Posso até concordar que Deus não pode impedir genocídios, chacinas e guerras, por que isso tudo é feito pela vontade do homem, e apenas o homem seria responsável por esse sofrimento. Agora pense comigo um pouquinho. Toda pessoa que sofre, esse sofrimento é provocado por outra pessoa? Isto é, o sofrimento de alguém é sempre resultado do livre arbítrio da própria pessoa ou de outrem?
CLARO QUE NÃO!
Pense nas doenças congênitas. Quantas crianças nascem com graves defeitos de formação, e sofrem durante um longo tempo, até morrerem? Quem provocou isso? Foi o livre arbítrio de quem?
Chegando a esse "beco escuro", só vejo duas saídas: Deus é mal ou Deus não tem nada a ver com isso. Como duvido que alguém escolheria a primeira opção, vamos trabalhar com a segunda. Pois bem, Deus não tem nada a ver com isso, mas ele não é todo-poderoso? Por que só algumas crianças nessa situação recebem um suposto milagre? Como o longo sofrimento seguido de morte de uma criança pode ser o melhor para a própria criança? Se a resposta for que a vida do outro lado bla bla... volto a perguntar: alguém já voltou de lá para dizer alguma coisa?
Pensar que Deus é todo-poderoso, que pode acabar com o sofrimento dessas crianças e não o faz, é o mesmo que pensar que ele é mal. Mas, como descartamos essa possibilidade, a única conclusão possível é que Deus não é todo-poderoso.
Sendo assim, orações não fazem o menor sentido, assim como igrejas não fazem o menor sentido.
As pessoas falam todas essas coisas, acreditam em todas essas coisas, simplesmente por que não querem encarar a realidade. O maior medo da maioria das pessoas é morrer, e todas essas frases são na verdade a manifestação de um desejo de que a realidade fosse diferente. Mas, infelizmente não é.
Eu sei que quase todos preferirão continuar acreditando nessas baboseiras. Sem problemas, o que importa mesmo é ser feliz, mesmo que para isso precisemos conviver com grandes mentiras.
"Ele está melhor do que a gente agora"
"Ele está em um lugar melhor do que a gente"
"O tempo vai acalmar seu coração"
"Deus sabe o que faz"
"Deus sabe o que é melhor"
Por que as pessoas falam isso?
Alguém já esteve "do lado de lá" e voltou pra contar como é? Não!
Pois é, como é que podem afirmar isso?
Em relação à terceira frase, a minha experiência é que o tempo apenas tira aquele sofrimento do foco central da sua vida, mas toda vez que você se lembrar de tudo que passou, toda a dor volta, com a mesma intensidade de sempre. Ou seja, o tempo não apaga nada.
Quanto às duas últimas frases, fico pensando se as pessoas que as dizem vivem realmente no mesmo planeta que eu. Chego a cogitar a possibilidade delas terem sido chipadas pelos mesmos alienígenas que pegaram a Baby do Brasil (ex-Baby Consuelo). É só abrir qualquer jornal ou revista e pensar por que tantas pessoas sofrem no mundo.
Muita calma nessa hora, é para pensar como gente grande! Tem muita gente "experta" por aí enganando as pessoas com filosofias baratas. A mais clássica de todas diz respeito ao livre arbítrio. Segundo esses "especialistas", o sofrimento do mundo é decorrente do livre arbítrio, ou seja, Deus não pode interferir no mundo e impedir que as pessoas sofram por que Ele estaria suspendendo o livre arbítrio.
Uau! E agora? Como posso contestar essa "poderosa" ideia? Hum...
Bobagem, isso é a maior balela, facilmente empurrada goela abaixo de quem não quer se dar ao trabalho de pensar 30 segundos.
Posso até concordar que Deus não pode impedir genocídios, chacinas e guerras, por que isso tudo é feito pela vontade do homem, e apenas o homem seria responsável por esse sofrimento. Agora pense comigo um pouquinho. Toda pessoa que sofre, esse sofrimento é provocado por outra pessoa? Isto é, o sofrimento de alguém é sempre resultado do livre arbítrio da própria pessoa ou de outrem?
CLARO QUE NÃO!
Pense nas doenças congênitas. Quantas crianças nascem com graves defeitos de formação, e sofrem durante um longo tempo, até morrerem? Quem provocou isso? Foi o livre arbítrio de quem?
Chegando a esse "beco escuro", só vejo duas saídas: Deus é mal ou Deus não tem nada a ver com isso. Como duvido que alguém escolheria a primeira opção, vamos trabalhar com a segunda. Pois bem, Deus não tem nada a ver com isso, mas ele não é todo-poderoso? Por que só algumas crianças nessa situação recebem um suposto milagre? Como o longo sofrimento seguido de morte de uma criança pode ser o melhor para a própria criança? Se a resposta for que a vida do outro lado bla bla... volto a perguntar: alguém já voltou de lá para dizer alguma coisa?
Pensar que Deus é todo-poderoso, que pode acabar com o sofrimento dessas crianças e não o faz, é o mesmo que pensar que ele é mal. Mas, como descartamos essa possibilidade, a única conclusão possível é que Deus não é todo-poderoso.
Sendo assim, orações não fazem o menor sentido, assim como igrejas não fazem o menor sentido.
As pessoas falam todas essas coisas, acreditam em todas essas coisas, simplesmente por que não querem encarar a realidade. O maior medo da maioria das pessoas é morrer, e todas essas frases são na verdade a manifestação de um desejo de que a realidade fosse diferente. Mas, infelizmente não é.
Eu sei que quase todos preferirão continuar acreditando nessas baboseiras. Sem problemas, o que importa mesmo é ser feliz, mesmo que para isso precisemos conviver com grandes mentiras.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Revoltas juvenis
Ouvi certa vez de uma pessoa com quem conversava a seguinte
frase: “você está revoltado com Deus por causa
do que aconteceu com seu filho”. Naquela ocasião, era procedente a
colocação daquela pessoa, mas hoje não é mais, por vários motivos que
explicarei a seguir.
Essa frase aparentemente inocente e sem maiores pretensões esconde
um universo inteiro de intenções. A primeira coisa que é preciso destacar é que
a pessoa que me dirigiu essa pequena pérola
em forma de frase pertencia a uma religião tradicional, e não acredito
tratar-se de um caso isolado. Acredito que nas pequenas coisas encontram-se indícios
para as grandes coisas. Esse tipo de comentário é algo muito comum por parte de
religiosos, e quando não é exteriorizado, costuma ser pensado. Mas afinal, o
que tem de tão especial nessa frase?
Basicamente, a frase não explica nada, não consola, não
conforta, não indica caminhos, possibilidades, respostas, enfim, é vazia de
significados para quem está sofrendo, mas repleta de intenções para quem se
acha conhecedor da Verdade (se é que existe uma). Ao tomar conhecimento de
histórias tristes, os próprios fiéis, de qualquer religião que seja, precisam “apagar
o incêndio”, não deixar que o vírus da dúvida plantada com a revolta de quem
sofre contamine suas mentes. Essa pérola
em forma de frase serve muito mais como “resposta” para quem compartilha de
alguma fé religiosa do que para quem duvida dela.
Claro que, para quem sofre, ela está longe de ser uma
resposta, simplesmente por que não responde nada. Contudo, imaginemos que seja
verdade que pessoas passando por situações críticas em suas vidas duvidem de
Deus e até blasfemem contra Ele. Não seria o caso de contra-argumentar as
dúvidas com algumas palavras de mínima sabedoria? Por que a dúvida se tornaria
ilegítima apenas e tão somente pelo fato de ser decorrente de um momento de
fúria?
Para fazer uma analogia, seria mais ou menos como se um
aluno, revoltado com seus estudos de matemática, perguntasse aos berros para o
professor: “que droga! Não suporto mais isso! Por que o quadrado da hipotenusa
é a soma dos quadrados dos catetos? Por quê?” e o professor, ao chegar bem
perto, pegar na mão do aluno, olhar nos olhos dele, desse um suspiro e dissesse:
“vai passar, você só está revoltado, vai passar”.
É claro que essa analogia pode parecer forçada para algumas
pessoas, e de certa forma, eu até concordaria com elas se dissessem “mas nem
tudo tem resposta como na matemática”. Ótimo! Então por que não dizer para uma
pessoa que está sofrendo “sinto muito, eu não tenho uma resposta”? Por que, ao
invés disso, tenta-se responder o que não tem resposta, e o pior, com uma
pseudo resposta como a pérola apresentada acima?
Outra coisa que é
preciso esclarecer é que quem diz essa frase, em geral, não consegue imaginar
que alguém possa viver sem acreditar em Deus. As pessoas que acreditam
verdadeiramente em Deus imaginam que, mesmo aqueles que se dizem ateus, no
fundo o fazem por raiva ou revolta por alguma perda ou fracasso sofridos na
vida, ou até por inveja do que os “abençoados por Deus” alcançaram. Aliado ao
fato de que não faz sentido estar revoltado contra algo que não se acredita,
terminam por concluir que a revolta vai passar e a pessoa vai aceitar seu
destino.
Além de extremamente egoístas, são pensamentos muito limitados
e típicos dos pensamentos difundidos por adoradores de deuses espalhados mundo
afora, principalmente da cultura judaico-cristã, que agarram-se às suas “frágeis
verdades” e precisam, desesperadamente e o tempo todo, justificá-las para mantê-las
isoladas e protegidas de todo e qualquer ataque que possa perturbar a calmaria
e a complacência do seu mar de ignorância.
Qualquer dúvida, por mais simples e frugal que seja, como aquelas
que nascem das inocentes (porém pertinentes!) perguntas das crianças, não são
bem vindas em praticamente nenhuma religião. Pseudo respostas como “é assim”, “Deus
fez assim”, “Deus quis assim” ou “um dia você vai entender” são as mais comuns,
e seus objetivos são claríssimos, afastar as nuvens negras antes que comecem a
chover dúvidas mais profundas. Essa última, aliás, seria uma das mais sinceras
se mudasse para “um dia você vai esquecer”.
Em geral, é isso que acontece quando crescemos, esquecemos as
questões fundamentais, seja por que nos acostumamos com as respostas que os
adultos nos deram na infância, seja por que cansamos de procurar por elas, seja
por que as tarefas do cotidiano nos atropelaram como um rolo compressor. Em qualquer caso, turbulências da vida tem o
importantíssimo papel de trazer à tona novamente a criança que deixamos adormecida
lá no fundo para perguntar “Deus existe? Por que então Ele não aparece para
gente? Ele não quer que a gente o veja? Por que as pessoas tem que sofrer?”
Viva a revolta juvenil!
quinta-feira, 26 de julho de 2012
O que é o Diabo?
O que é o diabo?
Nada mais que o oposto de Deus, certo?
E para quê serve o Diabo? Serve para preencher as lacunas da ideia-deus (a ideia criada pelos homens de que existe um deus que olha por nós, bla bla bla).
Por exemplo, como explicar o sofrimento de uma pessoa justa, ou o que é pior, de uma criança? Deus poderia querer isso? Ele estaria fazendo a criança sofrer mas na verdade seu alvo são os pais da criança?Parece brincadeira né, mas tem muita gente que acredita nisso. Outras não acreditam, e daí, como resolver a questão?
Alguns ainda apelam para a "teologia do teste". Deus estaria testando a fé das pessoas por que na verdade ele ama essas pessoas, tem um plano maior para eles.
Caramba! Piorou não acham? Acreditar que Deus usa um inocente para atacar terceiros é no mínimo coisa de sequestrador, e ainda por cima, um sequestrador bem diferente (para não dizer demente), por que na verdade, ele ama o sequestrado e sua família.
Gente que pensa dois minutos não acredita nisso.
O que sobra para salvar a ideia-deus e não jogá-la fora? Tchanan! Eis que aparece o Diabo! A culpa é dele! Claro, sempre tem que haver um culpado não é isso?
Pois bem, para não ter que suportar a ideia de que existe um Diabo, não seria melhor abrir mão da ideia-deus?
Nada mais que o oposto de Deus, certo?
E para quê serve o Diabo? Serve para preencher as lacunas da ideia-deus (a ideia criada pelos homens de que existe um deus que olha por nós, bla bla bla).
Por exemplo, como explicar o sofrimento de uma pessoa justa, ou o que é pior, de uma criança? Deus poderia querer isso? Ele estaria fazendo a criança sofrer mas na verdade seu alvo são os pais da criança?Parece brincadeira né, mas tem muita gente que acredita nisso. Outras não acreditam, e daí, como resolver a questão?
Alguns ainda apelam para a "teologia do teste". Deus estaria testando a fé das pessoas por que na verdade ele ama essas pessoas, tem um plano maior para eles.
Caramba! Piorou não acham? Acreditar que Deus usa um inocente para atacar terceiros é no mínimo coisa de sequestrador, e ainda por cima, um sequestrador bem diferente (para não dizer demente), por que na verdade, ele ama o sequestrado e sua família.
Gente que pensa dois minutos não acredita nisso.
O que sobra para salvar a ideia-deus e não jogá-la fora? Tchanan! Eis que aparece o Diabo! A culpa é dele! Claro, sempre tem que haver um culpado não é isso?
Pois bem, para não ter que suportar a ideia de que existe um Diabo, não seria melhor abrir mão da ideia-deus?
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Babaquice fantástica
Não costumo mais assistir ao programa Fantástico, exibido pela Rede Globo há não sei quantas décadas no horário nobre da família brasileira, mas no dia 3 de junho de 2012, duas espiadas foram suficientes para me deixar espantado com o que vi/ouvi.
Foram duas entrevistas, com dois pais que passaram por situações difíceis com seus filhos. Eu não sei se as pessoas notaram as semelhanças, mas o comediante Paulo Silvino e o cantor Leonardo, em seus depoimentos, disseram praticamente a mesma coisa.
Leonardo disse acreditar que a recuperação de seu filho Pedro Leonardo, que passou uma temporada na UTI em estado grave devido a um acidente automobilístico se devia a um milagre. Paulo Silvino, com outras palavras também creditou a Deus a recuperação de seu filho Flávio Silvino, também vítima de um acidente de carro.
O depoimento de Silvino foi mais dramático, cheio de emoção, quando ele contou com mais detalhes como teria sido sua conversa com Deus. Foi mais ou menos assim:
"Deus, você não tem como não fazer esse milagre, o Brasil inteiro está pedindo, está orando, e olha, vai ser um grande marketing para você. Do contrário, se você não fizer, as pessoas podem duvidar da sua existência..."
Será que alguém se deu conta da insanidade que essa pessoa disse? Entendemos que se tratava de um momento difícil, mas não há como não perceber agora que ele praticamente chantageou Deus, e o que é muito pior, esqueceu ou desconsiderou que milhares de pais fizeram pedidos igualmente desesperados e tresloucados no intuito de salvar seus filhos de situações igualmente extremas, mas não obtiveram a mesma resposta.
O que será que acontece? Deus só atende aos pedidos se devidamente chantageado? Ele desejava matar o Flávio Silvino, mas como houve uma comoção nacional, além da chantagem do pai, Ele se sentiu obrigado a realizar um milagre? Por que Deus permite que crianças sejam vítimas de câncer e pereçam por meses ou anos em um leito de hospital, ou que sejam queimadas ou jogadas na lata do lixo por suas mães, ou ainda que cresçam com graves limitações físicas ou mentais? Ele estaria muito ocupado em realizar milagres para reestabelecer garotos velozes e furiosos ao volante?
Acreditar nesse tipo de Deus não seria uma babaquice fantástica?
segunda-feira, 28 de março de 2011
Contra quem se revoltar?
Perder um filho não é o fim do mundo, é um pouco pior. Dizem que a dor do parto é a mais forte que um ser humano pode experimentar. Pode até ser, mas ela dura alguns minutos e é seguida por uma alegria que está só começando. Perder um filho é justamente o contrário, pois a dor começa depois que eles se vão.
Todos dizem que essa dor diminui com o tempo. Nos primeiros dias, porém, ela parece que aumenta, é o que chamam de "tempo da ficha cair". Simplesmente não era possível acreditar que ele não estaria mais conosco, e sempre que chegava em casa, sentia que ele estaria lá, me esperando como sempre fazia. Em cada cômodo vazio as lembranças brotavam facilmente, e imediatamente eram seguidas de lágrimas. Lágrimas de saudade, mas também de muita revolta.
Com mais de dois meses sem o meu filho, ainda é difícil deitar à noite e dormir um sono tranquilo. Todas as lembranças do hospital e do sofrimento pelo qual ele teve que passar vem à mente, e nenhuma palavra que me disseram, nenhum raciocínio (e tentei vários!) foi ainda capaz de me consolar, de sarar a ferida da sua partida.
É um misto de raiva com estupidez, pois não é possível direcionar essa raiva para alguém. Vou explicar.
Quando o filho de alguém é assassinado, em geral a família embarca em uma luta para que a justiça condene o culpado. De uma certa forma, essa luta dá algum sentido para a vida dessas famílias, que são destruídas com a perda trágica dos filhos.
Quando o filho morre em um acidente, em geral também é possível encontrar um culpado. Mas, e no caso de perder um filho para uma doença grave como a leucemia, contra quem eu vou me revoltar? Quem foi o culpado pela morte dele? Quem foi culpado pelo aparecimento da doença e pelo sofrimento pelo qual ele passou em quase 3 anos de tratamento? É justo uma criança vir ao mundo e não conhecer o mar, não correr, não sair de casa para se divertir, e como se ainda não bastasse, sofrer dores físicas e torturas psicológicas?
É por isso que a raiva que sinto é estúpida, eu não posso direcioná-la para nenhuma pessoa. Será então que eu posso culpar a Natureza?
De uma certa forma sim, por que a doença aparece por alguma falha genética, que é o cerne da Natureza, ou é a própria Natureza. Mas, de uma certa forma não, por que essa doença também se distribui aleatoriamente na população, e da mesma forma que meu filho foi "sorteado" , milhões de crianças não foram, e seus pais provavelmente agradecem a Deus por isso.
E eu, faço o que?
sexta-feira, 18 de março de 2011
Quando não souber o que dizer, não diga nada!
É incrível como as pessoas falam coisas o tempo todo, mesmo quando não possuem nenhuma opinião formada sobre o assunto. Um caso típico acontece sempre que alguém pergunta sobre uma pessoa e descobre que essa pessoa morreu; sem saber o que dizer, e sem pensar um segundo sequer, já mandam logo uma frase do tipo :"Deus sabe o que faz!", ou "Deus sabe o que é melhor". Alguns dizem isso até com certo grau de convicção. Quanto engano...quanta besteira...
Será que alguém já parou pra pensar que para um pai que perde um filho, isso nunca pode significar algo bom? Como vai ser melhor? Tem algum cabimento isso? O pai vai ficar mais feliz sem o filho? E para uma criança que perde os pais? Como vai ser a vida dela? Vai ser melhor crescer sem a presença dos pais?
Quem sou eu para saber as respostas de todas as coisas, mas as pessoas deveriam pelo menos pensar um pouco antes de falar qualquer bobagem.
Será que alguém já parou pra pensar que para um pai que perde um filho, isso nunca pode significar algo bom? Como vai ser melhor? Tem algum cabimento isso? O pai vai ficar mais feliz sem o filho? E para uma criança que perde os pais? Como vai ser a vida dela? Vai ser melhor crescer sem a presença dos pais?
Quem sou eu para saber as respostas de todas as coisas, mas as pessoas deveriam pelo menos pensar um pouco antes de falar qualquer bobagem.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Qual é a melhor religião?
Recebi esse texto por email, um daqueles intermináveis Fwd que não costumo abrir, mas o título me chamou a atenção e resolvi ler. Dizia o seguinte:
"No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos,
na qual ambos (eu e o Dalai Lama) participávamos,
eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico,
lhe perguntei em meu inglês capenga:
- "Santidade, qual é a melhor religião?" (Your holiness, what`s the best religion?)
Esperava que ele dissesse:
"É o budismo tibetano" ou "São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo."
O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos
- o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia
contida na pergunta - e afirmou: "A melhor religião é a que mais
te aproxima de Deus, do Infinito".É aquela que te faz melhor."
Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta,
voltei a perguntar:
- "O que me faz melhor?"
Respondeu ele:
-"Aquilo que te faz mais compassivo" (e aí senti a ressonância tibetana, budista,
taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado,
mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... Mais ético...
A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião..."
Calei, maravilhado, e até os dias de hoje
estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável...
Não me interessa amigo, a tua religião ou mesmo se tem ou não tem religião.
O que realmente importa é a tua conduta perante o teu semelhante, tua família, teu trabalho, tua comunidade, perante o mundo...
Lembremos:
"O Universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos".
A Lei da Ação e Reação não é exclusiva da Física. Ela está também nas relações humanas. Se eu ajo com o bem, receberei o bem. Se ajo com o mal, receberei o mal.
Aquilo que nossos avós nos disseram é a mais pura verdade: "terás sempre em dobro aquilo que desejares aos outros".
Para muitos, ser feliz não é questão de destino. É de escolha.
Pense nisso.
Breve diálogo entre o teólogo brasileiro Leonardo Boff e o Dalai Lama.
Leonardo Boff explica:
Leonardo Boff explica:
"No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos,
na qual ambos (eu e o Dalai Lama) participávamos,
eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico,
lhe perguntei em meu inglês capenga:
- "Santidade, qual é a melhor religião?" (Your holiness, what`s the best religion?)
Esperava que ele dissesse:
"É o budismo tibetano" ou "São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo."
O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos
- o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia
contida na pergunta - e afirmou: "A melhor religião é a que mais
te aproxima de Deus, do Infinito".É aquela que te faz melhor."
Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta,
voltei a perguntar:
- "O que me faz melhor?"
Respondeu ele:
-"Aquilo que te faz mais compassivo" (e aí senti a ressonância tibetana, budista,
taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado,
mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... Mais ético...
A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião..."
Calei, maravilhado, e até os dias de hoje
estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável...
Não me interessa amigo, a tua religião ou mesmo se tem ou não tem religião.
O que realmente importa é a tua conduta perante o teu semelhante, tua família, teu trabalho, tua comunidade, perante o mundo...
Lembremos:
"O Universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos".
A Lei da Ação e Reação não é exclusiva da Física. Ela está também nas relações humanas. Se eu ajo com o bem, receberei o bem. Se ajo com o mal, receberei o mal.
Aquilo que nossos avós nos disseram é a mais pura verdade: "terás sempre em dobro aquilo que desejares aos outros".
Para muitos, ser feliz não é questão de destino. É de escolha.
Pense nisso.
Realmente é bonito, principalmente a parte do Dalai, mas tenho que discordar do final. A lei da ação e reação não existe. Quantas pessoas que só fazem o bem não receberam uma bala perdida? Quantas pessoas que só fazem o mal e nada de mal acontece a elas? Infelizmente não existe justiça divina, e essa estória de ação e reação é uma espécie de justiça divina disfarçada.
Perdi um filho de 3 anos e 4 meses, sendo que por 2 anos e 8 meses ele sofreu diariamente torturas físicas e psicológicas de um tratamento para combater a leucemia.
Qual a justiça nessa história? O que ele fez de mal ao universo para merecer isso?
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Frases de efeito (ou com defeito)?
Hoje li a seguinte frase num local público: "Deus movimenta um mundo para fazer o impossível, mas não mexe uma palha para fazer o que o homem pode fazer." O que acharam?
Forte né? Tem um efeito incrível! Mas trata-se de uma grande besteira...
A doença do meu filho era incurável para os médicos, portanto, nenhum homem podia fazer nada. E no entanto, Deus não agiu, não fez o impossível. E fatos semelhantes acontecem todos os dias, todas as horas. É que as pessoas não costumam fazer visitas aos hospitais para conhecer o mundo real, preferem continuar pronunciando suas impactantes frases de efeito do mundo imaginário.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O documento que lutamos para não ter
Nossa vida é pautada por documentos, que nada mais são do que declarações para outrem de que nós somos nós mesmos, tais como RG e CPF, ou, declarações de que temos algumas habilidades, tais como CNH, diplomas e certificados. Sem os documentos é impossível viver em qualquer civilização, e em geral, lutamos muito para consegui-los.
Qual de nós já não comemorou a conquista de alguns desses documentos? A felicidade de ser aprovado no exame de direção para conseguir a tão cobiçada Carteira Nacional de Habilitação é um exemplo. E em relação a diplomas, todos nós já nos sentimos orgulhosos por terminar algum curso, seja de aperfeiçoamento, graduação ou até mesmo pós-graduação. São marcos na vida de qualquer um.
Caros amigos, existe, porém, pelo menos um documento pelo qual lutamos muito para não ter. Trata-se da certidão de óbito de algum ente querido. Eu já assinei meu diploma de Mestrado, com muito orgulho, mas, também tive que assinar a certidão de óbito do meu filho, de apenas três anos de idade, após muita luta, muita dedicação para que não precisasse fazer isso. Mas não teve outro jeito.
Ao preencher uma ficha com os dados que constarão na certidão de óbito, existe um campo assim: Deixou bens? Deixou herdeiros? Foi instantâneo, tive vontade de puxar um quadradinho e escrever "Deixou saudades, muitas saudades".
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Desabafo de um pai
De antemão peço desculpas a todos por incomodá-los com o meu problema e o de minha família, mas a situação é tão desesperadora que escrever é a única forma de desabafar nesse momento.
Suportei todas as notícias ruins, todas as recaídas, todas as internações e todas as sessões de tortura pelas quais o Enrique passou nesses três anos na intimidade dos parentes mais próximos, e desde quando criei o blog meninoenrique, a intenção era incentivar o cadastramento de medula, e prometi a mim mesmo não colocar questões pessoais aqui. Por isso publico no Infinitos.
Nesses anos de internação, principalmente nesse ano que está acabando, fiquei mais no hospital do que em casa, e pude refletir muito, inúmeras vezes, incontáveis minutos, sozinho em uma área externa do hospital. Lá eu chorei, lá eu xinguei, lá eu conversei comigo mesmo, lá eu discuti com Deus.
Com exceção dos familiares mais próximos, quase ninguém nos visitou, deixando-nos em completo isolamento nesses mais de três anos. Uma parcela da culpa é nossa, reconheço, por dizer que o Enrique não podia receber visitas. Mas, isso foi lá em idos de 2008...muitos nunca mais ligaram pra saber se a situação mudou, ou pelo menos pra saber se o Enrique ainda está vivo...na verdade, a realidade é um pouco pior, muitos parentes nem mesmo conhecem o Enrique.
Mas, apesar de tudo, não os culpo por isso. Acho que cada um só deve fazer o que sentir vontade. Abomino a falsidade, o pior defeito do ser humano na minha humilde opinião. Não cabe a mim julgar ninguém, e não guardo mágoa no meu coração. Apenas acho que quem passa pela situação que estamos passando não é obrigado a ficar dando satisfações e informando um por um sobre as "novidades". Por isso, acho também que nos esquecer (ou nos deixar de lado, o que dá quase no mesmo) foi uma decisão que muitos amigos e/ou parentes tomaram. Respeitamos essa decisão.
Pois bem, por outro lado, o isolamento me fez pensar várias coisas, e nesse ponto, agradeço àqueles que não foram me visitar por me proporcionarem esse encontro comigo mesmo. Foram muitos momentos naquela área externa do hospital, em completo isolamento, que rezei, chorei, implorei e até me revoltei, enquanto Enrique sofria algum tipo de tortura, física ou mental, naquele cárcere privado.
A primeira coisa que refleti é que só pensa nas coisas que pensei aquela pessoa que passa por uma situação extrema, onde a sua própria vida ou de um ente querido é seriamente ameaçada. Pensei por exemplo, que exceto em casos de guerra, o curso natural da vida é os filhos perderem os pais. Quando ocorre o inverso, devemos pensar.
É claro que não perdemos o Enrique. Ele continua lutando bravamente. Mas, pelo menos uma vez na vida, sejamos menos egóistas e pensemos nos outros. Conhecemos pais e mães que perderam seus filhos naquele hospital, em situação muito semenlhante à nossa, e sentimos a dor que eles sentiram, pelo menos por alguns instantes.
É inevitável pensar em justiça (ou na falta dela) nesses momentos. Por que uma criança tem que sofrer tanto? Será que existe uma resposta para isso? Se Deus sabe de todas as coisas, então sabe que a criança não vai resistir, por que não abrevia o sofrimento dela? Se os pais devem algo, por que a criança tem que pagar por eles?
Refleti muito sobre essas questões, muito mesmo, principalmente neste ano que está acabando. Procurei as respostas, e como as procurei. Fui à Bíblia e encontrei um livro cheio de contradições, uma colcha de retalhos passível de praticamente qualquer tipo de interpretação. Fui ao espiritismo, destrinchei todo o "Livro dos Espíritos" de Kardec, mas nada sossegou meu coração desesperado de pai, que vê o filho sofrendo dia após dia, podendo fazer muito pouco para amenizar seu sofrimento.
É claro que trata-se de falta de fé, muitos de vocês dirão. Eu reconheço que minha fé diminuiu consideravelmente depois da segunda e principalmente agora da terceira recaída do Enrique. É que a razão sempre falou mais alto na minha cabeça. Se o próprio Deus nos deu a inteligência, por que não podemos usá-la para refletir sobre Ele? Por que devemos aceitar tudo que o Padre ou o Pastor dizem?
Pensando com a minha própria cabeça, concluí que as respostas que procurei não existem. Deus não tem nada a ver com a doença do meu filho e de muitas outras crianças. Mas se Ele tudo sabe e tudo pode, por que não interferiu? Ou, por que interferiu em alguns casos enquanto em outros deixou que sofressem? São os planos de Deus? Ele sabe o que é melhor para todos?
Com certeza, não é melhor para os pais perderem seu filho na mais tenra idade, sem nada da vida ter aproveitado. Lembrei também de uma criança que perdeu o pai e a mãe em um acidente de carro. Com certeza, não foi melhor para ela ficar sozinha no mundo sem os pais.
Minha conclusão foi a seguinte: Deus não decide essas coisas. O acaso decide. É melhor que seja assim. Do contrário, Ele poderia ser considerado cruel, torturador e insensível, e acho que ninguém concordaria que Deus tivesses essas qualidades. Ninguém lá em cima olha por nós. Que assim seja.
Suportei todas as notícias ruins, todas as recaídas, todas as internações e todas as sessões de tortura pelas quais o Enrique passou nesses três anos na intimidade dos parentes mais próximos, e desde quando criei o blog meninoenrique, a intenção era incentivar o cadastramento de medula, e prometi a mim mesmo não colocar questões pessoais aqui. Por isso publico no Infinitos.
Nesses anos de internação, principalmente nesse ano que está acabando, fiquei mais no hospital do que em casa, e pude refletir muito, inúmeras vezes, incontáveis minutos, sozinho em uma área externa do hospital. Lá eu chorei, lá eu xinguei, lá eu conversei comigo mesmo, lá eu discuti com Deus.
Com exceção dos familiares mais próximos, quase ninguém nos visitou, deixando-nos em completo isolamento nesses mais de três anos. Uma parcela da culpa é nossa, reconheço, por dizer que o Enrique não podia receber visitas. Mas, isso foi lá em idos de 2008...muitos nunca mais ligaram pra saber se a situação mudou, ou pelo menos pra saber se o Enrique ainda está vivo...na verdade, a realidade é um pouco pior, muitos parentes nem mesmo conhecem o Enrique.
Mas, apesar de tudo, não os culpo por isso. Acho que cada um só deve fazer o que sentir vontade. Abomino a falsidade, o pior defeito do ser humano na minha humilde opinião. Não cabe a mim julgar ninguém, e não guardo mágoa no meu coração. Apenas acho que quem passa pela situação que estamos passando não é obrigado a ficar dando satisfações e informando um por um sobre as "novidades". Por isso, acho também que nos esquecer (ou nos deixar de lado, o que dá quase no mesmo) foi uma decisão que muitos amigos e/ou parentes tomaram. Respeitamos essa decisão.
Pois bem, por outro lado, o isolamento me fez pensar várias coisas, e nesse ponto, agradeço àqueles que não foram me visitar por me proporcionarem esse encontro comigo mesmo. Foram muitos momentos naquela área externa do hospital, em completo isolamento, que rezei, chorei, implorei e até me revoltei, enquanto Enrique sofria algum tipo de tortura, física ou mental, naquele cárcere privado.
A primeira coisa que refleti é que só pensa nas coisas que pensei aquela pessoa que passa por uma situação extrema, onde a sua própria vida ou de um ente querido é seriamente ameaçada. Pensei por exemplo, que exceto em casos de guerra, o curso natural da vida é os filhos perderem os pais. Quando ocorre o inverso, devemos pensar.
É claro que não perdemos o Enrique. Ele continua lutando bravamente. Mas, pelo menos uma vez na vida, sejamos menos egóistas e pensemos nos outros. Conhecemos pais e mães que perderam seus filhos naquele hospital, em situação muito semenlhante à nossa, e sentimos a dor que eles sentiram, pelo menos por alguns instantes.
É inevitável pensar em justiça (ou na falta dela) nesses momentos. Por que uma criança tem que sofrer tanto? Será que existe uma resposta para isso? Se Deus sabe de todas as coisas, então sabe que a criança não vai resistir, por que não abrevia o sofrimento dela? Se os pais devem algo, por que a criança tem que pagar por eles?
Refleti muito sobre essas questões, muito mesmo, principalmente neste ano que está acabando. Procurei as respostas, e como as procurei. Fui à Bíblia e encontrei um livro cheio de contradições, uma colcha de retalhos passível de praticamente qualquer tipo de interpretação. Fui ao espiritismo, destrinchei todo o "Livro dos Espíritos" de Kardec, mas nada sossegou meu coração desesperado de pai, que vê o filho sofrendo dia após dia, podendo fazer muito pouco para amenizar seu sofrimento.
É claro que trata-se de falta de fé, muitos de vocês dirão. Eu reconheço que minha fé diminuiu consideravelmente depois da segunda e principalmente agora da terceira recaída do Enrique. É que a razão sempre falou mais alto na minha cabeça. Se o próprio Deus nos deu a inteligência, por que não podemos usá-la para refletir sobre Ele? Por que devemos aceitar tudo que o Padre ou o Pastor dizem?
Pensando com a minha própria cabeça, concluí que as respostas que procurei não existem. Deus não tem nada a ver com a doença do meu filho e de muitas outras crianças. Mas se Ele tudo sabe e tudo pode, por que não interferiu? Ou, por que interferiu em alguns casos enquanto em outros deixou que sofressem? São os planos de Deus? Ele sabe o que é melhor para todos?
Com certeza, não é melhor para os pais perderem seu filho na mais tenra idade, sem nada da vida ter aproveitado. Lembrei também de uma criança que perdeu o pai e a mãe em um acidente de carro. Com certeza, não foi melhor para ela ficar sozinha no mundo sem os pais.
Minha conclusão foi a seguinte: Deus não decide essas coisas. O acaso decide. É melhor que seja assim. Do contrário, Ele poderia ser considerado cruel, torturador e insensível, e acho que ninguém concordaria que Deus tivesses essas qualidades. Ninguém lá em cima olha por nós. Que assim seja.
terça-feira, 29 de abril de 2008
Reflexões acerca da fé
Como diria Humberto Gessinger, poeta pós-moderno do B-Rock,
Tenho pensando muito nessas questões ultimamente. Por que a crença em Deus precisa ser irracional? Por que questionar os fundamentos religiosos da fé é considerada uma atitude ofensiva?
Segundo a própria fé cristã, fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Como somos inteligentes e dotados de racionalidade, supõe-se que Deus assim também o é. Portanto, Deus quer que acreditemos nele usando o cérebro, ou seja, de uma forma justificada e não arbitrária.
Comentários serão bem-vindos.
É preciso fé cega e pé atrás, olho vivo, faro fino, e tanto faz.
Tenho pensando muito nessas questões ultimamente. Por que a crença em Deus precisa ser irracional? Por que questionar os fundamentos religiosos da fé é considerada uma atitude ofensiva?
Segundo a própria fé cristã, fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Como somos inteligentes e dotados de racionalidade, supõe-se que Deus assim também o é. Portanto, Deus quer que acreditemos nele usando o cérebro, ou seja, de uma forma justificada e não arbitrária.
Comentários serão bem-vindos.
sábado, 8 de março de 2008
A felicidade
Não raramente, deixamos a nossa felicidade para depois. Segunda-feira, prestes a começar uma dura rotina de trabalho, pensamos assim: "o final de semana vai chegar e eu vou fazer isso, aquilo..." Ou seja, gostaríamos que a semana voasse, passasse muito rápido mesmo, para podermos aproveitar o fim de semana.
O que estamos fazendo? Estamos jogando fora cinco dias e aproveitando dois dias. Em porcentagem, estamos jogando fora 71% dos nossos dias e além disso, estamos trocando o hoje pelo amanhã.
Pior do que isso, pensamos que "as férias vão chegar e eu vou fazer isso ou aquilo..." Ou seja, estamos vivendo meses e meses pensando em quando chegar tal dia vamos descansar, vamos viajar, etc. Pior ainda, quando pensamos na aposentadoria...aí estamos jogando anos e anos fora.
Não deixe para ser feliz amanhã. Seja feliz hoje, pois só o hoje é real. O amanhã pode ser uma quimera.
quinta-feira, 6 de março de 2008
Tempo, dinheiro e saúde
Para refletir:
Quando somos muito jovens, temos saúde e muito tempo livre, mas, em geral, não temos dinheiro.
Quando somos adultos, temos dinheiro e ainda temos saúde, mas, não temos mais tanto tempo livre.
Quando envelhecemos, voltamos a ter tempo e ainda temos dinheiro, mas, a saúde já não é a mesma.
Como conciliar esses três fatores então? Difícil, pois o equilíbrio é sempre mais difícil de ser alcançado. O ponto chave dessa questão é o trabalho. Se trabalhamos pouco, preservamos a saúde e o tempo livre, mas, não ganhamos dinheiro suficiente. Se trabalhamos muito, comprometemos a saúde a longo prazo e principalmente o tempo livre.
O ideal então é trabalhar o máximo possível para ter dinheiro, mas, sem prejudicar a saúde e sem ocupar todo o seu tempo. Contudo, evidentemente, isso não é uma tarefa fácil, pois somos tentados a trabalhar mais para ter uma vida (supostamente) melhor, seja pela família, seja pela sociedade em geral, afinal de contas, o “trabalho dignifica o homem” (e enriquece o patrão!).
Quando somos muito jovens, temos saúde e muito tempo livre, mas, em geral, não temos dinheiro.
Quando somos adultos, temos dinheiro e ainda temos saúde, mas, não temos mais tanto tempo livre.
Quando envelhecemos, voltamos a ter tempo e ainda temos dinheiro, mas, a saúde já não é a mesma.
Como conciliar esses três fatores então? Difícil, pois o equilíbrio é sempre mais difícil de ser alcançado. O ponto chave dessa questão é o trabalho. Se trabalhamos pouco, preservamos a saúde e o tempo livre, mas, não ganhamos dinheiro suficiente. Se trabalhamos muito, comprometemos a saúde a longo prazo e principalmente o tempo livre.
O ideal então é trabalhar o máximo possível para ter dinheiro, mas, sem prejudicar a saúde e sem ocupar todo o seu tempo. Contudo, evidentemente, isso não é uma tarefa fácil, pois somos tentados a trabalhar mais para ter uma vida (supostamente) melhor, seja pela família, seja pela sociedade em geral, afinal de contas, o “trabalho dignifica o homem” (e enriquece o patrão!).
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